O David Sineiro foi um fofinho e enviou-nos a primeirĂssima histĂłria desta rĂşbrica.
Acho que começámos muito bem, mas tirem as vossas próximas conclusões.
"Ora bem, como as
pessoas mais atentas ao que se escreve neste blogue já sabem eu sou fotógrafo e
portanto ando sempre carregado com material.
Certo dia, estava a
fazer uma sessão fotográfica numa praia e terminadas as fotos lá, mudei-me com
as duas modelos para uma casa abandona que conheço no meio de uma floresta.
Ambas as raparigas (que asseguro nĂŁo serem a Suse e a Melissa) estavam com medo
de lá entrar, porque diziam que podia ser assombrada ou ter lá gente.
De facto, depois de
entrarmos vimos vestĂgios de pessoas, bancos, garrafas, roupas e um colchĂŁo que
eu nunca tinha visto naquele local.
Completada a sessĂŁo,
deixei as moças no carro delas e fui para casa, onde tinha outra sessão de
estúdio para fazer, mas ao chegar, quando retirava material do carro, lá
reparei que o meu tripé estava desaparecido em combate.
Como me tinham ajudado
a trazer o tripé da praia, rapidamente pensei que o teria deixado ao lado do
carro e arrancado sem o arrumar. Telefonei a alguém que fosse lá confirmar, mas
como ainda era longe ninguém me podia fazer esse favor.
Dito isto, e porque os
tripés são caros, assim que terminei a sessão seguinte agarrei no carro e lá
fui eu para a praia, já seriam 20h em horário de Inverno, numa noite sem luar.
Chegado ao local, nem
sinal do meu tripé, pensei obviamente que alguém teria visto e decidido
adoptar, mas aĂ lembrei-me que apesar de nĂŁo o ter usado, levei-o para a casa
abandonada com intenção de fazer lá uma fotografia em particular.
Hesitante, lá me dirigi
Ă casa abandonada (sim, aquela que era no meio da floresta e onde havia
vestĂgios de pessoas). Rapidamente comecei a pensar em ser assassinado por
algum drogado, e arquitectei o plano de deixar o carro Ă entrada da floresta,
podendo assim enfiltrar-me no terreno sem fazer barulho e sem ser visto. Na
minha cabeça já estava o sĂtio exacto onde havia pousado o tripĂ©, sĂł precisava
de lá chegar e conseguir voltar sem alertar possĂveis gandulos.
Assim fiz, chegado Ă
floresta, desliguei o carro e saĂ. NĂŁo havia rĂ©stia de luz Ă minha frente, nĂŁo
conseguia ver o chão onde punha os pés, muito menos o caminho sinuoso que me
levaria até à casa. Apontei o telemóvel para a frente, mas de pouco servia, a
escuridĂŁo parecia ser mais forte que a luz. Imaginei todos os videojogos de
terror que tenho jogado durante a minha vida.
Como seria chato
falecer e nunca ninguém descobrir o meu cadáver, já me tinha posto em contacto
com uma das minhas colegas de trabalho e modelo que tinha estado a fotografar
essa tarde. Ao menos ela sabia onde tĂnhamos ido e saberia alertar alguĂ©m no
caso de eu ser assassinado brutalmente.
Ao telefone, lá decidi
ir de carro até à casa, não me restando a alternativa de ir a pé. Cheguei ao
terreno e deixei as luzes acesas enquanto rapidamente e silenciosamente me
tentei infiltrar. A minha colega, como boa amiga que Ă©, sussurrava ao meu
ouvido coisas como “David vais morrer” e outros miminhos fofos de ouvir quando
estamos sozinhos num sĂtio abandonado no meio do nada e onde pode ou nĂŁo estar
alguém mal-intencionado.
Lá entrei na casa e sem
ouvir barulhos ou ver luzes, cheguei ao tripé, que estava exactamente onde o
tinha deixado. Soube nessa altura que provavelmente estava seguro, pois se lá
tivesse ido alguém, não teria ignorado um tripé caro montado no meio de uma
sala. Assim sendo, mais descansado, mas ainda de pés leves, lá corri até ao
carro e me pus a andar. O meu coração estava a querer sair pela boca, mas
acabei por me recompor e guardar para sempre a lição.
É esta a história; sim
podia ter esperado para o dia seguinte, mas era sábado e quanto mais tempo
passasse, mais hipóteses haveria de perder para sempre um bom tripé que ainda
por cima foi uma prenda do meu pai."
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